Em meu país, fale a minha língua
Crônicas | Qua, 05 de Outubro de 2011 08:28
Lembro quando tinha cerca de oito anos de idade e brincava, aos sábados, com meus colegas chilenos. Pela comodidade, eu falava em português, eles em espanhol, e nos entendíamos, afinal, brincávamos. Até aí, nada demais, não fosse o fato de morarmos na França. Lembro-me de um dia estar brincando com eles e, naquela bagunça de criança, gritarmos e nos divertirmos. Até que um adulto se aproximou de nós e nos disse, olhando nos olhos de cada um: no meu país, fale a minha língua. Estas palavras me marcaram mais tarde, na juventude, do que na hora. Ao estudar sobre as guerras e invasões, e ao compreender o senso nacionalista francês, compreendi as palavras daquele adulto. A língua é mais que um elemento de comunicação, é um elemento de identidade nacional, e no caso dos franceses da década de oitenta, um fator de segurança.
Esses dias me lembrei dessas palavras. Estava caminhando pelo centro de São Paulo e fiquei surpreso ao ouvir um diálogo em algum idioma do continente africano ao meu lado que não consegui identificar. Poucos metros à frente, um grupos de orientais falava em uma língua que também não consegui identificar. Fiquei tremendamente incomodado e deslocado. De repente, a rua 24 de Maio, meu caminho para a Galeria do Rock, tornou-se uma rua de um outro continente. Aquelas conversas empolgadas em outros idiomas me fizeram lembrar da frase de minha infância: no meu país, fale a minha língua.
Talvez isso soe um pouco ufanista, mas não é esse meu sentimento. Se um estrangeiro vem viver no Brasil, é prerrogativa que ele aprenda a língua que se fala no Brasil, e que nela se comunique em locais públicos. Sei que muitos hão de discordar do que falo. Mas por um instante, sob os olhares de alguns daqueles estrangeiros, senti certa insegurança, justamente por estar me sentindo deslocado em meu próprio país.
A imigração de sul-americanos, orientais e africanos é cada dia mais perceptível em São Paulo. Quem circula pelas regiões centrais de São Paulo, depara-se com eles. No Brás, presença dos bolivianos; no Belém, os chineses; no Glicério, os africanos, na Sé e Republica eles se encontram. Não é difícil ouvir outras línguas sendo faladas nestes bairros. Não é difícil sentir-se deslocado em seu próprio país nestes bairros. Não sou contra a vinda de pessoas de outros países para o Brasil, apenas creio que nós damos liberdade demais para os estrangeiros não se aculturarem ao nosso país, e mais, não fazem a mínima questão e esforço em fazê-lo. No fim das contas, fico com aquele anônimo francês e reafirmo aos queridos imigrantes que escolheram, ou vieram parar, no Brasil: no meu país, fale a minha língua, obrigado e sejam bem vindos!




