Cala boca, seu jornalista
Crônicas | Seg, 25 de Outubro de 2010 14:27
Preocupa-me ouvir, por parte da imprensa, manifestações sobre a liberdade de imprensa. Todas vezes que, historicamente, a imprensa manifestou-se sobre as leis e posições de Governos sobre a imprensa, havia no ar ventos de ditadura a soprar. Foi assim com Getúlio Vargas, foi assim com os militares. Quando a imprensa começa a apontar para o Governo a sua artilharia em defesa própria, é que já passou da hora da sociedade começar a se mexer.
Não vou aqui fazer uma defesa despropositada dos órgãos de imprensa. Sabemos que cada um tem sua linha editorial – uns nem a tem, mas isso é outra história – e que todos são tendenciosos. O que me preocupa é quando vejo o Governo argentino querer criar um mecanismo de nacionalização da imprensa, para que esta defenda os interesses nacionais, eliminando a crítica e reflexão, tão característicos dos meios de imprensa. Preocupa-me também atitudes como a Assembleia Legislativa do Ceará, que cria um Conselho de Comunicação Social para orientar os jornalistas e monitorar a imprensa escrita e áudio visual. Isto me faz lembrar o SNI, Serviço Nacional de Informação, que instalava nas redações dos jornais e revistas seus censores, que obrigavam redações a remeter a Brasília as matérias que seriam publicadas, isso há mais de trinta anos e aqui, neste país, que engoliu a seco uma ditadura militar.
As atitudes e decisões dos Governos argentino e cearense são reflexos de um movimento que vem tomando conta da América do Sul desde o início do Século. Hugo Chaves faz da Venezuela uma “semi-ditadura-democrática”, cerceando a imprensa e reprimindo a oposição. Na Argentina, Cristina Kirchner vai aos poucos colocando suas garras de fora, assumindo o papel de “semi-ditadura-democrática”, continuísmo de seu marido Nestor, que deve voltar depois dela. Aqui no Brasil não vamos em direção contrária não, aos poucos políticos e Governantes instalam-se no poder e monitoram as atividades da imprensa. Basta lembrar que no início de seu primeiro mandato, o Presidente-cabo-eleitoral Luis Inácio deu um “cala boca” no correspondente do The New Yoirk Times no Rio de Janeiro porque este soltou uma nota em que constatava o apreço de Luis Inácio à bebida, para não dizer que ele bebia muito.
Assim, a imprensa vai aos poucos, gritando para a sociedade abrir os olhos, pois os Governos estão mostrando, aos poucos, que a democracia deles é incompatível com a liberdade de imprensa. É preciso que a sociedade abra bem os olhos e se manifeste. Por mais tendenciosa que seja, a imprensa ainda é a voz pela qual a sociedade grita e expõe suas opiniões, pois aqueles a quem pagamos e elegemos para fazê-lo, a saber o legislativo, abriram mão desse papel. Pela liberdade de imprensa e de expressão, vigiemos o Governo, outra ditadura, não, muito menos um “semi-ditadura-democrática”!




