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Por uma cultura de sociedade

Tive a oportunidade, na infância, de morar fora do país. Meu pai foi fazer seu doutorado em geologia em Nancy, na França, e lá ficamos cinco anos. Experimentei aquilo que o chamado primeiro mundo tem de melhor e pior para oferecer a quem vive lá. Tive a oportunidade, num momento de formação de meu DNA social, de crescer em uma cultura diferente da minha, e isso não me faz melhor nem pior que ninguém, apenas diferente. Sobre essas diferenças de cultura que quero falar hoje.

Ontem, enquanto ia para o centro de São Paulo, ouvi na rádio a repórter falando sobre a fila para compra de ingressos do show de Paul McCartney. Em determinado momento da reportagem, ela entrevista uma pessoa que furou a fila e passou à frente de pessoas que haviam chegado às seis da manhã do dia anterior. O que me surpreende é que o “furão” disse: eu sei que eu furei, mas eu estou com meu ingresso na mão!

Atitudes como essa podem ser claramente condenadas por parte da elite brasileira dizendo que só acontece no Brasil, que no exterior não aconteceria. No exterior aconteceria também, mas a pessoa seria socialmente execrada, os que estavam à frente e atrás dela a fariam sair da fila, haveria bom senso e ética para com os demais que já estavam na fila. Atitudes simples como estas demonstram que nos pequenos detalhes está a falta de senso comum e ética social. Somos convidados à corrupção todos os dias e não me espanta a sociedade eleger corruptos para os cargos públicos, é reflexo daquilo que nós mesmos fazemos em nossas vidas, seja na fila do show do Paul McCartney, seja no troco errado para mais que ficamos com ele.

A diferença substancial entre o chamado primeiro mundo europeu, com o qual eu tive a oportunidade de conviver, e o chamado terceiro mundo brasileiro, é a cultura de sociedade. Nós não a temos, e pelo andar da carruagem, não a teremos tão cedo. Enquanto pensarmos primeiro em tirar vantagens pessoais em tudo, enquanto o “eu” vier antes do “nós”, poderemos ser até a economia mais forte do planeta, mas não seremos socialmente e culturalmente um país de primeiro mundo. 

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