O sempre ainda foi pouco
Contos | Qua, 16 de Março de 2011 09:45
Havia acabado de chegar da padaria quando o telefone de casa tocou. Eram sete e vinte e o dia amanhecia preguiçoso, como todo dia de inverno paulistano. Era julho, e seu ânimo estava a mil, afinal o inverno era sua estação do ano favorita. Deixou os pães sobre a mesa e atendeu o telefone. Do outro lado da linha, sua mãe animada lhe contava de sua mais recente viagem, voltara de Belém do Pará no dia anterior, e já anunciava a viagem seguinte
–Filho, se você puder nos hospedar, chegamos aí semana que vem, vamos passar três dias com você: quarta, quinta e sexta.
Desligou o telefone e foi tomar seu café da manhã. Ao terminar, seguiu para o computador e leu seu correio eletrônico e, logo após, as noticias e sites que acompanha. Ao terminar suas leituras e liquidar a lista de e-mails a responder, levantou-se e foi até a sacada de seu apartamento. Do alto do décimo oitavo andar ele tinha uma visão privilegiada de Perdizes e Pompéia. Suspirou um pouco e pensou o que animara tanto sua mãe a vir a São Paulo. Enfim. Descansou a mente contemplando o céu azul de inverno e perdendo-se em pensamentos e lembranças que nunca o abandonavam. Um nome. Apenas um nome. Jaqueline.
Os dias passaram-se sem sobressaltos. Até que quarta-feira, oito horas da manhã, seu interfone toca. Sua mãe chegara acompanhada das amigas, duas. Subiram e entraram no apartamento festejando o filinho queridinho da mamãe. Acomodaram-se nos quartos de visita e deixaram para desarrumar as malas depois. Foram direto para a mesa e, por duas horas, comeram, riram e conversaram. Saíram da mesa direto para a rua. As três amigas tinham muito o que fazer: compras, museus, tudo aquilo que a aposentadoria tem de bom a oferecer.
Ele passou o dia em casa, adiantando seu trabalho no computador e fazendo, à tarde, o que costumava fazer de manhã. Seguiu seu rumo assim até elas voltarem. Já eram seis e meia da tarde quando elas entraram no apartamento na alegria de sempre. Na cozinha, ele preparava a janta: frango ao molho de vinho com uvas e arroz integral, tudo acompanhado de uma salada de folhas.
–Esse filinho da mamãe é um partidão!
Brincou uma das senhoras ao vê-lo na cozinha de avental pilotando o fogão. Sua mãe tratou logo de completar
–Partidão e o passe dele é caro, ele é exigente que só!
Desconversaram o assunto e, após comida pronta, jantaram e deliciaram-se noite a dentro com um bom vinho e um jogo de canastra para divertir. Entre uma carta e outra, as amigas da mãe já iam se rendendo à Morpheus até que restaram mãe e filho à mesa, acompanhados de mais uma garrafa de um bom vinho e das cartas. Fez-se silêncio. O silêncio que antecede as conversas francas.
–Filho, posso te perguntar uma coisa?
–Claro, mãe.
–Você pretende se casar novamente?
Fez-se silencio por um instante. Ele baixou as cartas à mesa e suspirou. Desde a morte de sua esposa, prematuramente, vítima da violência de um assalto ao banco onde trabalhava, ele não pensava mais em casar-se. Mariana era uma mulher cheia de vida, eles se davam bem, mesmo não sendo ela o amor de sua vida. Seu grande amor tinha um nome, do qual nunca se esquecera e que não conseguia deixar de amar. O tempo já havia passado. Dez anos desde a morte da esposa, doze anos sem ver Jaqueline, e nenhuma mulher o fazia sonhar como Jaqueline, sua eterna inspiração.
–Mãe, acho que a essa altura do campeonato, com quase cinquenta anos, não vou encontrar quem queira se casa comigo
Respondeu ele esboçando um sorriso. Voltaram ao jogo e às trivialidades. Após algumas rodadas e o término da garrafa de vinho, sua mãe volta às questões.
–Posso perguntar outra coisa?
–Claro.
–Você tem visto a Jaqueline?
–Mais de dois anos sem notícias, por que?
–Ela me ligou, no dia que cheguei de viagem de Belém. Queria saber como eu estava e, inevitavelmente, falamos de você. Você ainda a ama?
–Como nunca....
Nesse instante seus olhos marejaram e ele ergueu os olhos em direção a sacada. No horizonte o sol começava a raiar a manhã de quinta-feira. Segurou as lágrimas que sempre rolam quando ele está sozinho, em casa, e voltou-se para mãe.
–Por que a pergunta, mãe?
–Ela vem aqui hoje, quer te ver. Vou sair com as meninas e só voltaremos amanhã para pegar as malas. Vou levá-las para o litoral. Filho, escuta tudo que ela tem pra te dizer e depois fala alguma coisa, combinado?
–Combinado. Que horas ela vem?
–Considerando que já são quinze pras seis da manhã, faltam quinze minutos para ela chegar.
Ele correu tomar um banho enquanto sua mãe ajeitava a bagunça da sala. Seis da manhã em ponto toca o interfone. Dois minutos depois, toca a campainha do apartamento. Ele, calmamente, com a cara do dia anterior apesar do banho, abre a porta. Do outro lado, Jaqueline lhe sorri. Os olhos marejados de ambos dão lugar às lágrimas de um reencontro, que se realiza num abraço, ainda à porta do apartamento. Ela entra, cumprimenta a todas e ele desce para a padaria, buscar pães e leite para o café da manhã. De volta, após o desjejum, despedem-se da mãe e das amigas. Estão sós.
–Tenho muito a te contar, Ângelo. Fazem dois anos que fiquei viúva. Tentei me preparar para o dia de hoje, mas percebi que não há nada a fazer quando se via reencontrar o amor da sua vida. Só quero que saiba de uma coisa: eu te amo e, se você me aceitar, eu vim pra ficar, pra sempre.
–Todo o “pra sempre” ao seu lado ainda será pouco para viver ao seu lado, minha menina.
Naquela manhã, sol de inverno a aquecer-lhes o rosto, corpos despidos entregaram-se ao amor, o amor que não se acaba. Foi o início do que sempre sonharam. Duas almas tão diferentes, mas tão únicas quanto o amor que as moviam, uniram-se para sempre, e o todo sempre ainda foi pouco para eles.




