Olhar
Contos | Qua, 16 de Fevereiro de 2011 07:37
Sentado na mesa da cafeteria, ele observa atentamente o movimento. O ambiente é, para ele, perfeito para procurar detalhes interessantes. A meia luz sobre as mesas, o ambiente informal, as pessoas. Tudo para ele era motivo de observação e contemplação.
Em um dos cantos da cafeteria dois homens, rigorosamente vestidos de terno, conversam. No meio do salão, em uma das mesas, duas jovens moças trocam risadas entre um gole e outro no chá. No canto oposto ao dele, uma moça entreolha por sobre a tela do notebook o ambiente. É então que ele percebe que não está só na tarefa de observar. E mais, ele está sendo observado! Por alguns minutos ele tentou manter-se incólume dos olhos dela, mas foi inevitável, ele se rendeu àquele olhos penetrantes. Concentrou-se nela e passou a rabiscar poemas em seu caderno. Versos brotavam daquele olhar e a inspiração era tanta que ele rendeu-se, sem se dar conta, a palavras de carinho e encantamento. Viajou longe naquele olhar.
Após um tempo de viagem e encantamento ele se dá conta que ela apenas o observa e, para seu espanto, ela fecha seu notebook, se levanta, e atravessa o salão com os olhos fitos nele. Chega-se a mesa, puxa a cadeira e, sem trocar uma palavra se quer, estende a ele o notebook. Ele o abre e lê na tela um texto de cerca de duas páginas. Ao final do texto, em uma frase solta do texto estava escrito “viajei em você, e você, viajou em mim?”. Sem falar nada, ele estende seu caderno na página onde começara a escrever e ela folheou cerca de cinco páginas de versos tão encantadores quanto provocantes. Ruborizou ao ler versos como “em teus mergulhados senti do doce sabor de teu corpo”. Ao final, devolveu-lhe o caderno. O silêncio perdurara. Os olhares encontraram-se e mergulharam novamente um no outro. A medida que mergulhavam, sem perceber, aproximavam-se fisicamente até que, num momento singelo, seus lábios se encontram e, num beijo, se apresentam um ao outro.




