Um convite à simplicidade
Altar | Sermões | Seg, 23 de Janeiro de 2012 10:11
Dorme tarde. Acorda cedo. Ônibus lotado, trem lotado, trânsito até o trabalho. Correria, pressão do patrão, insatisfação do colega de trabalho. Mais ônibus lotado, trem lotado, trânsito até chegar em casa. Rotina puxada. Realidade de muitos de nós. Em meio a isso tudo, temos casa, escola dos filhos, família, alguns estudam, enfim, uma serie de compromissos que tomam nosso tempo e consomem nossas forças.
O que fazer, para em meio a essa correria, termos qualidade de vida? A resposta parece complexa, mas não é, e está em uma palavra: simplicidade. Esta dura realidade não pode ser a desculpa para deixarmos de lado um dos valores mais preciosos do Reino de Deus: a simplicidade. O texto de 1Coríntios 7.29-31 nos fala da necessidade dessa busca. Ouça atentamente a leitura que farei deste texto.
O texto de 1Coríntios, em seu sétimo capítulo, apresenta um grande bloco onde Paulo discute a questão do matrimônio, celibato e sua relação com a eminente volta de Cristo. O sentido de urgência, no trecho que lemos, se faz presente no verso 31. A tradução de Almeida Revista e Atualizada o traduz como a aparência deste mundo passa. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje diz pois este mundo, como está agora, não vai durar muito. Por sua vez, a versão em Linguagem Contemporânea, que lemos, afirma que o mundo, como vocês o conhecem, está se desvanecendo. O mundo, como o povo de Corinto conhecia, estava por acabar. Esta expectativa de Paulo é a base para compreendermos todo o capítulo sete.
Os cinco exemplos dados por Paulo nos chamam atenção neste texto. Casados, os que choram, os que se alegram, os que compram e os que se utilizam do mundo são convidados a viver como se não estivessem fazendo o que estão fazendo. Como compreender essas palavras? A Bíblia na Linguagem Contemporânea nos lança luzes: Simplifiquem. Em seu Comentário à Primeira Carta de Paulo aos Coríntios, Dr. Werner de Boor nos diz:
É exatamente por isso que ele também sabe que nessa espera e nos inevitáveis sofrimentos por amor de Jesus todas essas coisas, como alegria e sofrimento, compra e aquisição, e também matrimônio e ligação humana, perdem a importância que elas possuem para o ser humano natural. Em tudo isso vale o “ter como se não tivéssemos”.
A urgência do fim dos tempos aponta para a simplificação do modo de vida, de nos focarmos no que é principal, e todas as demais nos serão acrescentadas, promessa do Senhor Jesus. O mesmo Dr. Werner de Boor nos chama atenção ao ligar as palavras de Paulo ao Evangelho de São Lucas 17.26-29, quando Jesus afirma que no tempo de Noé as pessoas Comiam, bebiam, casavam e davam-se em casamento, e no tempo de Ló Comiam, bebiam, compravam, vendiam, plantavam e edificavam e o fim delas foi o mesmo: a destruição completa. Portanto, as palavras de Paulo apontam para a urgência de uma reformulação no nosso modo de viver. Se nos preocuparmos com tudo, tudo irá nos consumir. Se nos ocuparmos em confiar e obedecer a Deus, tudo será edificado.
Lembramos aos irmãos que a Igreja de Corinto estava numa cidade multicultural, sofrendo influências de todos os lados, tanto cultural como religiosas. Por isso, não é de se espantar que os irmãos de Corinto tivessem questionamentos acerca do matrimônio e sua relação com a mensagem do Evangelho. Que diz Deus sobre o casamento nesse tempo difícil e de perseguição? O que diz Deus sobre vivermos em meio a tanta corrupção? As perguntas do povo de Corinto no Século I ecoam em nossos dias. O que Deus tem a dizer sobre nossa sociedade e nosso estilo de vida?
Aqui cabe um poema, de minha autoria, publicado originalmente em meu livro Caixa de Versos, intitulado Vai José!:
Vai José!
Todo engarrafado,
pro trabalho, apressado,
carregar teu fardo,
noite e dia ocupado.
Vai José!
Todo ensacolado
fazer compra no mercado.
Confere tudo, conta os trocados.
Vive todo endividado.
Para José!
Interrompe essa rotina,
que você já ta cansado.
Sua vida sem saída,
vive todo enrolado!
Para José!
Vamos cortar essa rima,
já estamos entediados.
Olha pra Jesus, José!
Muda de vida, José!
Muda José!
Somos esse José, engarrafado, apressado, com um grande fardo, ocupado. Somos esse José que vive na correria, nessa rotina que nos consome. Mas somos convidados, pela palavra de Deus, a mudar. A mudar o ritmo, a rima dessa vida toda complicada. Vivam de maneira simples, diz Paulo. Sejam econômicos na escolha das muitas coisas que o mundo tenta empurrar para vocês, completa o apóstolo.
Esta é a receita para nossas vidas: simplificação. Tudo o que pudermos fazer, façamos de maneira simples, sem buscar se auto promover ou promover qualquer outra coisa. Façamos tudo apontando para Cristo. O que Paulo nos recomenda é a simplicidade, a não observância dessa simplicidade pode nos trazer sérias consequências, basta lembrar o que fora recomendado por Jesus, no texto de Lucas 17.27-29 e que já citamos aqui. Nosso estilo de vida nos consome. A sociedade nos impõe um ritmo alucinado. Trabalhamos mais de nove horas diárias, se somarmos os deslocamentos, passamos maior parte do tempo fora de casa, e preso em algum tipo de compromisso que não nos acrescenta nada.
O que fazer então? Parar com tudo e ir viver numa espécie de sociedade alternativa? Não. Antes devemos buscar simplificar a nossa vida. O ritmo de correria de nossas vidas nos impede de termos um momento de contemplação e silêncio na presença de Deus, momentos de recreação com a família, momentos de lazer com a família. Precisamos dar um basta nisso tudo. O ócio, ou tempo livre, é visto como algo ruim em nossa sociedade. Você dizer para alguém que passou a manhã de sábado passeando no parque com a família, e não resolvendo as pendências da casa ou do trabalho, pode soar até ofensivo.
Neste sentido, de simplificarmos, precisamos inclusive repensar nossa agenda como igreja. Será que nosso formato de reuniões propicia a busca pela simplicidade de vida, comunitária e familiar? Por exemplo, se concentrássemos nossas atividades no domingo numa única faixa de horário, seja de manhã, seja à noite, não abriríamos espaços para aproveitarmos mais o tempo, descansando com a família ou até mesmo em outras atividades de lazer? No ritmo que vivemos, e no bairro que estamos, precisamos repensar nossa Igreja e sua agenda de programação, para oferecermos, tanto aos que são membros, como aos que virão, a oportunidade de um espaço de crescimento na nossa comunidade, dentro e fora da Igreja, ampliando assim as quatro paredes do templo e estendendo-as para onde estivermos. Precisamos repensar nossa igreja para a sociedade que vivemos, para falar com o povo ao nosso redor. Precisamos repensar a nossa religiosidade, para levarmos o povo aos pés de Cristo.
Simplicidade: ser simples, natural, singelo. Precisamos encontrar maneiras de não ocuparmos nosso tempo com o desnecessário. Precisamos encontrar maneiras de simplificar nosso tempo, colocando tudo no seu devido lugar, tendo Deus em primeiro lugar.
Conclusão. Vivemos tempos agitados, com a correria que sempre consome as nossas energias e pouco tempo nos resta para o lazer, desfrutarmos da companhia da família e dos amigos. Falta-nos tempo para sermos mais produtivos em nossos relacionamentos. O povo no tempo de Noé e Ló ocupavam-se com tudo, menos com a vontade de Deus e com seus relacionamentos. Paulo escreve para Corinto falando da mesma preocupação com o tempo. Os exemplos de Noé e Ló e as recomendações de Paulo servem para nossas vidas hoje: Vivam de maneira simples. Escolham em primeiro lugar o Reino de Deus, tenham qualidade e produtividade com Deus e nos relacionamentos, sejam mais humanos.
Este é o ponto. Sermos mais humanos, ou seja, mais afeiçoados, carinhosos, atenciosos uns para com os outros. Abandonarmos as prioridades não tão prioritárias e olharmos, com amor e zelo, para o nosso próximo. Não é um convite à irresponsabilidade, mas sim, um convite a priorizar o que deve ser, de fato, prioridade em nossas vidas. Lembre-se: suas escolhas determinam quem é você. E deixo aqui a pergunta, para você pensar com calma: quem é você? Refém de suas prioridades ou semeador de relacionamentos saudáveis? Que Deus nos ensine, dia a dia, a buscarmos a simplicidade em tudo.




