O prazer da vida
Altar | Sermões | Seg, 16 de Janeiro de 2012 09:10
Vivemos na sociedade do prazer. Esta afirmação não é um exagero. Busca-se o prazer na comida, nas relações pessoais, nos programas de TV, até mesmo na igreja. O prazer é buscado das mais diversas formas e nos mais diversos lugares.
O texto que separei, para meditação de hoje, fala sobre o prazer da vida. Ele foi escrito para uma igreja inserida numa sociedade muito parecida com a nossa, multicultural, e profundamente influenciada por essas culturas. Convido você a deixar sua Bíblia fechada e, atentamente, ouvir a leitura que farei de 1Coríntios 6.12-20.
O trecho que lemos, da carta de Paulo aos Coríntios, faz parte de um bloco de admoestações e orientações acerca da vida cristã. Trata-se de um texto duro, com palavras duras e diretas. Pode ser entendido, por nós hoje, em sua literalidade, ou à luz da realidade social e religiosa à época. Ambas não excluem o sentido do texto.
Corinto foi uma cidade grande. No tempo de Paulo, estima-se a população em 500.000 habitantes, dois quais um terço formado por pessoas livres e dois terços de escravos. Era uma cidade multicultural, pessoas de diversas regiões do Império Romano migraram para Corinto no quando de sua reconstrução. O próprio Cesar concedeu benefícios e incentivos para tal migração.
Corinto foi um centro religioso. Não só pelo conhecido templo de Afrodite e suas muitas sacerdotisas, mas também pela presença de diversas religiões orientais e seus chefes. Daí a influência sob o grupo dos primeiros cristãos se dividirem dizendo “eu sou de Paulo; eu sou de Apolo; eu sou de Cefas”. O templo de Afrodite fora, num momento anterior ao de Paulo, um grande centro de culto, com celebrações sexuais constantes. Já no tempo de Paulo, acreditam os historiadores e arqueólogos, as celebrações no templo de Afrodite eram apenas nas grandes festas. As suas famosas mil sacerdotisas, acredita-se, haviam reduzido em muito.
É nesta cidade multicultural que Paulo funda a Igreja de Corinto. Tomada por influências de todos os lados, Paulo e os líderes de Corinto procuram fundamentar a fé do povo, para que deixem os velhos hábitos e vivam conforme a vontade de Deus. É neste contexto que se insere nossa passagem de hoje.
A liberdade diante do que é legal. O que é mais apropriado a um cristão? Não é porque a lei não proíbe, que devemos praticar. Paulo alerta os cristãos de Corinto a respeito disso, pois estavam inseridos em uma sociedade multicultural, com liberdades que faziam dela um risco ao evangelho. Não difere muito dos nossos dias.
A nossa sociedade, nos parâmetros que se encontram hoje, representa um risco aos que desejam viver o evangelho. Temos a mesma liberdade religiosa de Corinto, e é exatamente aí que reside o perigo. Nos é oferecido uma variedade de comportamentos e produtos que nos levam a tomar decisões equivocadas e a substituir Cristo por situações, produtos e objetos.
“Só porque algo é correto diante da lei, não significa que seja espiritualmente apropriado”. De fato, poderíamos tecer uma lista de exemplos do que não é crime, mas também não é apropriado a um cristão. Paulo, escolheu dois exemplos: a glutonaria e a lascívia. Ou seja, comer além da conta e a sexualidade exagerada.
A preservação do corpo – parte 1: a alimentação. Primeiro você come para viver, depois você vive para comer. Um ditado interessante, que reflete inclusive a realidade social brasileira. Estudos apontam o crescimento do número de obesos nas classes econômicas C, D e E da sociedade, ou seja, as de menor poder aquisitivo. Por que? Porque experimentamos uma estabilidade econômica desde o governo Fernando Henrique Cardoso, que nos permitiu, nos últimos anos, colocar mais comida na mesa. Aquele bife que era aos domingos, passou a frequentar nossas mesas durante a semana, e por aí vai.
O alerta de Paulo aponta para aqueles que se banqueteavam em cerimônias não cristãs e, ao passarem a frequentar a Igreja, queriam fazer o mesmo na celebração eucarística. A Ceia do Senhor era, de fato, uma Ceia. Era uma janta, ou almoço, de fato. Por isso Paulo recomenda, nesta mesma carta, no capítulo 11 versos 33-34, que se o cristão estiver com tanta fome que não poderá esperar que todos cheguem, que ele se alimente em casa e depois venha participar, educadamente, da Ceia do Senhor.
A recomendação de Paulo ecoa em nossos dias com a expressão que lemos na Bíblia em linguagem contemporânea: pode ser verdade que o corpo seja apenas temporário, mas isso não é desculpa para você entupi-lo de comida. Não porque, um dia, nossos corpos virarão cinzas, ou alimento para a terra, que devemos entupi-lo de besteiras. A palavra de Deus nos convida a cuidar de nossos corpos. Este cuidado reflete-se na alimentação, e também num tema que, mesmo depois de anos, ainda é polêmico nas igrejas: sexo.
A preservação do corpo – parte 2: a sexualidade.
Bom! Vá lá, vai ver que é pelas crianças. Mas quem essa besta pensa que é prá decidir? Depois aprende por aí que nem eu aprendi... Tão distorcido que é uma sorte eu não ser pervertido
Os versos da música Sexo do Ultraje a Rigor vem bem a calhar, quando falamos de sexo. Quem é capaz de falar, com propriedade, de sexo, senão aquele que criou a humanidade? Durante séculos o sexo foi considerado um mal necessário para a reprodução humana pelos cristãos, enquanto grupos não cristãos, ou cristãos que não concordavam, o celebravam como dádiva de Deus. Sexo é mais que pele sobre pele: é tanto um mistério espiritual quanto um ato físico. As palavras de Paulo apontam para a natureza real do sexo: um mistério espiritual, de união entre duas pessoas, não apenas física. Aqui, cabem as palavras de Brennan Maning, em Convite à solitude, sobre essa diferenciação que fazemos entre espírito e corpo:
Espírito não se refere ao imaterial. Estamos falando da pessoa. A pessoa é um espírito-no-corpo-e-no-mundo. O espírito não é esotérico ou desincorporado. A matéria e o espírito são uma só coisa. Era como Paulo se referia ao espírito em suas cartas. Quando dizia que o espírito guerreia contra a carne, não estava pensando em algum ser pneumático guerreando contra nossos ossos, carne e sangue ... O espírito para Paulo eram aqueles ossos, carne e sangue. A “carne” para Paulo era aquela pessoa que não se achava sob a égide da fé. Assim, o espírito e a matéria são uma só coisa. (Brennan Manning em Convite à Solitude, grifo meu)
Á luz de Paulo, portanto, somos os mais capacitados para falar de sexo na sua plenitude. Pois se estamos sob os ensinos da fé, estamos plenamente conectados com Deus. O pecado do sexo viola a sacralidade do corpo. Percebem como nosso corpo e espírito são uma só coisa? Não existe essa relação de o corpo é ruim, vira cinzas, e o espírito é bom, fica com Deus. Se creio apenas na santificação do espírito, nego a ressurreição do corpo!
Paulo não fala da questão sexual à toa. Falamos na introdução sobre o templo de Afrodite e suas sacerdotisas e rituais sexuais. A cultura do sexo estava ainda era forte em Corinto. Por isso o alerta de Paulo. Esta mesma cultura do sexo é forte hoje. Há algum tempo, necessitaríamos de um olhar mais crítico nas cenas de filmes, seriados, novelas e programas de TV para falar que havia uma apologia ao sexo. Hoje, ligamos a TV e nos deparamos com corpos seminus, de homens e mulheres, e consideramos esse apelo sexual normal. Não é. Homens, estimulados pelo visual, e até mesmo mulheres, estimuladas por situações, se deixam levar pela conversa de que corpos seminus, cenas picantes, são normais. Não são. Não posso admitir que sejam.
É preciso nos reeducarmos para compreendermos que o prazer sexual vai além do ato físico, é construído na relação espiritual entre um homem e uma mulher. O que os meios de comunicação apresentam, e a sociedade entende, como prazer sexual é apenas um décimo do real prazer sexual, mal sabem eles qual o real prazer! O real prazer sexual não está no ápice da relação física, mas está na união física e espiritual de duas vidas, que se comprometem plenamente, diante do Criador de suas vidas, a enfrentarem as adversidades e a desfrutarem dos prazeres e alegrias, plenamente, em seus corpos e espíritos. Ao invés de transferirmos à televisão e amigos a educação sexual de nossos filhos, devemos nós dizermos, com toda a propriedade, que a sociedade do sexo não sabe o que é prazer de verdade! Prazer de verdade é a união plena de corpo e espírito, em uma só carne, união tão plena que o próprio Criador celebra essa união!
Conclusão. Vivemos tempos de liberdade. Liberdade religiosa, cultural e sexual. Não é por que a lei não condena, que é algo aceitável perante Deus. Precisamos entender e compreender que, os bens e benefícios do momento atual de nossa sociedade, podem nos levar a uma vida distantes de Deus. O apelo excessivo à comer além da conta, o sexo como produto e estilo de vida, nos levam a trazer as palavras de Paulo aos corintos para os dias de hoje, e a dizer à humanidade que Deus tem o melhor para nós, nossa liberdade é uma liberdade com responsabilidade. Por sermos servos de Deus, temos a alegria de desfrutar dos prazeres que só ele tem para seus filhos. É esta alegria de viver, este prazer pela vida à dois que devemos valorizar e anunciar.
A sociedade pensa que sabe o que é uma vida de prazer. Comer até não poder mais, praticar sexo aleatoriamente e excessivamente. A sociedade está distante do real prazer que é sentar-se à mesa com a família e os amigos e desfrutar de momentos agradáveis e conversas sinceras, sem excessos. A sociedade está distante do real prazer que o sexo proporciona, um prazer pleno, soma do corpo e do espírito, não apenas corporal, mas pleno, completo, infinitamente mais prazeroso que o simples ato físico.
Igreja de Cristo, é tempo de olhar para a nossa sociedade e mostrar a eles que a vulgaridade em nada tem com o real prazer da vida: a plenitude da união de amigos e família ao redor da mesa, a plenitude da união do homem com a mulher, sendo os dois uma só pessoa. Estes são os reais prazeres da vida. Sejamos nós os propagandistas maiores dos prazeres que a vida, em Cristo, nos oferece: relacionamentos saudáveis, alicerçados no amor a Deus e plenos diante dele.




