A quem seguimos?
Altar | Sermões | Seg, 09 de Janeiro de 2012 10:15
Seguir alguém, hoje, pode parecer algo relacionado à Rede Sociais, conversa dessa turma que vive conectada na internet. Vivemos uma cultura da individualidade e cada cabeça é, de fato, uma sentença. Tenho a liberdade de escolher o que seguir, a quem seguir e se vou mesmo seguir tudo, ou parte daquilo que alguém ensina ou propõe.
O texto que separei para nossa meditação hoje, fala sobre um grupo de pessoas que seguia, em partes, os ensinos de um mestre, mas que desconheciam o poder e a glória que seu mestre ensinava e para quem ele apontava. Peço a você que mantenha sua Bíblia fechada, mas que acompanhe atentamente a leitura que farei de Atos dos Apóstolos 19.1-7.
Nos versículos que lemos, o evangelista Lucas, autor de Atos dos Apóstolos, nos apresenta o encontro do apóstolo Paulo com doze discípulos em Éfeso. Estes discípulos conheciam e eram adeptos dos ensinos de João Batista, mas aparentemente desconheciam totalmente os ensinos de João, como veremos, e também desconheciam o poder e a gloria de Cristo.
Cabe aqui uma curiosa anotação. João Batista iniciou seu ministério por volta do décimo quinto ano do reinado de Tibério Cesar, provavelmente 25 d.C. Em pouco tempo, João Batista foi preso e, posteriormente, decapitado por Herodes Antipas. Seu ministério e influência, aparentemente, terminaram ali. Mas em Atos, Lucas nos mostra que, cerca de três décadas depois da morte de João Batista, algumas pessoas que haviam recebido seu batismo residiam em Éfeso, e não na Judeia. Diante do exposto, quem eram, então, os discípulos encontrado por Paulo? Discípulos de João? E este batismo, ao qual foram submetidos, fora um re-batismo? Essas são perguntas que derivam de uma realidade, que muitas vezes, ignoramos: o desdobramento do ministério de João Batista.
Quando Paulo chega à Éfeso, encontra-se, provavelmente, com Priscila e Áquila, que o informam sobre o ministério de Apolo, citado no início do texto que lemos. Em seguida, encontra os doze discípulos. A palavra discípulo, que Lucas usa em Atos para descrever os cristãos, é geralmente sinônimo de seguidores de Cristo. Paulo, diante destes discípulos, lança a dúvida: vocês receberam o Espírito Santo? A resposta é um tanto quanto inconcebível: nunca nem ouvimos falar em Espírito Santo!”. Digo inconcebível, pois o Antigo Testamento ensina a doutrina do Espírito Santo e, sendo estes discípulos da região da Judeia, eles deveriam saber a respeito do Espírito Santo, que inclusive é presença marcante na vida de João Batista desde o ventre materno. Talvez aqui, a resposta dos discípulo deva ser entendida no sentido de “nunca ouvimos dizer que as pessoas estão recebendo o Espírito Santo”.
O fato dos discípulos de Éfeso se mostrarem ignorantes quanto à presença do Espírito Santo é interessante. Um cristão sem o Espírito Santo é uma contradição. Fé sem Espírito nada mais é que consenso. Além do mais, seriam estes cristãos de fato? O ensino neo-testamentário afirma que, qualquer pessoa que não tenha recebido o batismo cristão, não pertence à comunidade. Daí a pergunta de Paulo: como foi então, que foram batizados? Foram batizados, segundo eles mesmos, no batismo de João Batista.
João Batista pregava o arrependimento e batismo da mudança radical de vida. Aqui, cabe apontarmos para o fato dos discípulos de João Batista terem ignorado a premissa que seu mestre lhes deixou, acerca do Cristo: convém que eu diminua e ele cresça. Tendo explicado a diferença entre João Batista e Jesus Cristo, Paulo impõe as mãos sobre os discípulos, e o Espírito Santo veio sobre eles. Não pretendo aqui tecer um tratado, ou um debate sobre a questão do re-batismo, não é este o tema deste sermão. Apenas deixo com os irmãos a palavra de João Calvino, no comentário a este texto: Eu nego que o batismo com água tenha sido repetido. Calvino interpreta o batismo dos doze de Éfeso como a vinda do Espírito sobre eles.
O fato é que os doze discípulos foram batizados. João Batista pregou sobre arrependimento e perdão, falou da vinda do Espírito Santo, mas João Batista não era capaz de limpar e perdoar os pecados, nem tão pouco outorgar o Espírito Santo sobre ninguém. Esta era uma [prerrogativa do Cristo. Em Éfeso, pela quarta vez, o Espírito Santo é derramado sobre um grupo de pessoas. Judeus em Jerusalém, samaritanos e gentios na Cesareia tinham tido o Espírito Santo derramado sobre eles.
Olhando para a experiência de Paulo em Éfeso, com os doze discípulos, o que podemos aprender para os nossos dias?
Muitos pensam seguir a Cristo. Paulo encontrou-se com um grupo de pessoas que acreditavam seguir os ensinos da Palavra. Eles viviam de maneira genuína a sua vida religiosa, mas desconheciam o poder da fé em Cristo Jesus.
Em nossos dias, muitos pensam viver seguindo o ensino da Palavra. Quando vejo notícias de multidões se aglomerando para ouvir determinados pregadores, participar de determinados cultos, pergunto-me o que anda sendo entendido como Evangelho de Cristo. Será que tudo que cantamos, ouvimos e celebramos é parte da herança da mensagem do Evangelho? É preciso olhar e atentar para o que anda sendo dito e ensinado em nome de Jesus Cristo.
Muitos vivem como se o Evangelho de Cristo fosse um amuleto, uma fórmula mágica para solucionar os problemas imediatos de nossas vidas. Este ensino é dado por meio de pregações, músicas e livros. Alguns de nós consomem estes conteúdos, pelo simples fato de serem rotulados de evangélicos. Precisamos tomar cuidado. Muitos tem se arvorado como detentores da Palavra de Deus, mas apontam mais para si que para Cristo. Seus ouvintes são enganados. São como os doze discípulos: pensam viver a Palavra, mas a vivem de maneira equivocada, por não compreenderem a palavra.
Como então, corrigir essa rota e viver conforme a vontade de Deus? É preciso apresentar o Cristo. Não é uma afirmação simples. Apresentar o Cristo é difícil. Dietrich Bonhoeffer afirma que não é possível conhecê-lo todo, mas sim nos aproximarmos mais dele. É este o movimento que devemos fazer: ir em direção a Deus com Cristo. Quanto mais nos aproximamos de Deus, mais conhecemos sua vontade. Quanto mais caminho com Cristo, mais me pareço com ele. Portanto, para apresentar o Cristo àqueles que se encontram iludidos por um falso Evangelho, é preciso caminhar junto, estar ao lado, se comprometer.
A Igreja é lugar de compromisso. Compromisso com Deus, com Cristo, com a comunidade. Não podemos vir à Igreja e simplesmente ignorarmos a presença de nossos irmãos, que aqui estão. Não posso simplesmente sair o culto e deixar para trás os relacionamentos que tenho aqui. Como cristão, devemos estreitar nossos laços, nossos relacionamentos devem ser intensos e verdadeiros.
Apresentar a Cristo não é tarefa fácil, justamente por exigir compromisso. Mas como apresentaremos a quem não conhecemos? Difícil, não é mesmo? Portanto, se queremos uma igreja crescente, evangelizadora e o templo cheio, precisamos conhecer a Cristo, caminhar com ele, estar com ele em cada minuto de nossas vidas, não apenas no domingo, aqui na Igreja. Você lê a sua Bíblia? Ou ela é apenas um livro que você carrega para cima e para baixo? Você tem orado a Deus? Conversado com ele? Para conhecer a Deus, é preciso ler sua Palavra, conversar com ele e estar com ele. Como conhecer alguém com quem não nos relacionamos? É preciso conhecê-lo para apresentá-lo.
Concluindo. Vivemos dias de oferta no mercado da religiosidade. Como ouvir, em meio a tanto barulho, a voz de Cristo? É preciso conhecê-lo para saber sua vontade e reconhecermos sua voz. Quando Cristo nos falar, o reconhecemos. Quando o Espírito Santo é derramado, há transformação de vida, há entendimento, há profecia, há a glorificação e adoração real e verdadeira a Deus.
A Igreja de Cristo atravessa momento de confronto. A luta é contra o falso Evangelho, aquele que anuncia facilidades, benefícios e ganhos para seus adeptos. A luta é mostrar às pessoas o Cristo. Só conseguiremos, se nos comprometermos a andarmos com elas, dia após dia, juntos, nos reconhecendo como filhos do mesmo Deus e pai, irmãos de Cristo, nosso amigo e Senhor, nos comprometendo com Cristo e com nosso próximo. A quem servimos? Ao nosso interesse, ou a Cristo? Quem é o Senhor da sua vida?




