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A começar em nós, precisamos combater o mal

 

São Mateus 5.38-48

Dias Melhores
(Jota Quest / Composição: Rogério Flausino)

Vivemos esperando
Dias melhores
Dias de paz, dias a mais
Dias que não deixaremos para trás

Vivemos esperando
O dia em que seremos melhores
Melhores no amor
Melhores na dor
Melhores em tudo

Vivemos esperando
O dia em que seremos para sempre
Vivemos esperando
Dias melhores prá sempre

 

Há na história da humanidade diversos exemplos de pessoas que, em sua cultura de paz, enfrentaram poderes e impérios. Jesus é nosso exemplo maior, mas não podemos fechar os olhos para pessoas que dedicaram suas vidas e as perderam por uma cultura de paz. Mahatma Gandhi, Martin Luther King e outros, que pacificamente ousaram enfrentar impérios e poderes que nunca antes foram enfrentados na voz e nas ações pacíficas de pessoas conscientes de que a paz é o melhor caminho.

O texto que lemos fala sobre a resistência ao mal e o amor aos inimigos. Jesus estava diante de uma plateia que viva subjugada pelo Império Romano. É diante deste povo oprimido e massacrado, sem muitos direitos e com muitos deveres, que Jesus pede que eles resistam sem violência e amem os seus inimigos, a ponto de orar por eles.

A resistência não violenta ao mal. Uma primeira leitura dos versos 38 a 42 pode nos levar a pensar em uma atitude de submissão total a quem domina e oprime. No tempo de Jesus era o império romano quem dominava e oprimia a região da Judeia. Em situações de opressão e domínio político e econômico, o instinto de sobrevivência e o desejo de vingança são latentes. Há, por parte do oprimido, um desejo de se reverter a situação e devolver na mesma moeda o mal que lhe é feito pelo opressor.

Em nossos dias, no Brasil, talvez seja mais difícil identificarmos quem é este império a dominar o povo. Há, porem, uma força em nosso país que direciona a nação à ignorância e ao consumismo desenfreado. No primeiro caso, assistimos a relativização do ensino e o total descaso com o aparelho educacional há décadas. O Brasil, que deseja ser um país de primeiro mundo, caminha a passos largos para ser um país economicamente de primeiro mundo e educacionalmente de quinto mundo. Países africanos, tido como menos desenvolvidos que nós, apresentam índices educacionais superiores.

No segundo caso, o econômico, assistimos passivamente uma oferta de produtos à prazo que inchou o mercado financeiro, a ponto de nos últimos meses se cortar a oferta de crédito no mercado. Tudo para refrear o consumo, que pode levar à inflação. Este consumo desenfreado vem pelo poder de compra das classes menos favorecidas e, vejam, dentre os produtos mais comprados estão a televisão e o DVD. A entrada na faculdade particular de um grande número de alunos provenientes de escolas com educação de péssima qualidade, fez com que a inadimplência e a dificuldade de aprendizagem aumentassem e viessem à tona. Dos matriculados em cursos superiores particulares, mais da metade não passam do primeiro semestre.

Onde está a opressão nisso tudo? A opressão está no ensino de péssima qualidade, que leva o povo à falta de reflexão e questionamento da estrutura vigente, pior, leva ao conformismo! O que Jesus nos mostra, nos versos de 38 a 42, é que não devemos nos conformar, mas sim, reagir de forma não violenta. Ao dar a outra face, não estamos dizendo que somos coniventes, ao contrário, estamos acusando o agressor de ser um opressor. Ele não precisaria que déssemos a outra face para continuar a nos bater, bastaria continuar batendo. Ao oferecer a outra face estamos reafirmando nossa resistência não violenta à opressão. Hoje, dar a outra face, é buscar o conhecimento e ser melhores alunos e estudante, é vencer as dificuldades de uma escola sem estrutura para sermos melhores no que fazemos, melhores faxineiros, melhores cozinheiros, melhores administradores, melhores em tudo. Melhores também na administração e uso consciente do dinheiro que ganhamos em nossos trabalhos.

O amor ao inimigo. O reconhecimento destes males, entre outros, que consome nossa sociedade é necessário para reconhecermos a quem devemos amar. Jesus afirma categoricamente que devemos “amar nosso inimigo e orar pelos que nos perseguem”. Não podemos simplesmente nos calar diante de todo o mal que aí está.

Esta semana ocupou o noticiário o aumento do salário mínimo. Poucas semanas atrás era o aumento dos próprios parlamentares. Avaliando os dados de uma pesquisa feita pelo DIEESE - Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos, percebe-se que o salário mínimo ideal para o brasileiro viver dignamente é de R$ 2227,53. Este salário atenderia a prerrogativa constitucional de

"salário mínimo fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às de sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, reajustado periodicamente, de modo a preservar o poder aquisitivo, vedada sua vinculação para qualquer fim" (Constituição da República Federativa do Brasil, capítulo II, Dos Direitos Sociais, artigo 7º, inciso IV).

No entanto, assistimos verdadeiros malabarismos políticos e econômicos para se negar este valor e rasgar a constituição brasileira. Se politicamente é inviável o salário mínimo de R$ 2227,53, economicamente não o é, mas para que ele acontece, pessoas que ganham mais teriam que ganhar menos, e qualquer um de nós não abriria mão de um gordo salário para beneficiar a maioria, não é mesmo?

Aí está o ponto, muitas vezes o inimigo somos nós mesmos. Nós, que aumentaríamos os nossos salários e não abriríamos mão dele. Muita vezes, a mudança que se faz necessária é amar a nós mesmos a ponto de nos desprendermos de valores e bens para vivermos o evangelho de Jesus. O inimigo é esta ganância desenfreada que há em todos, inclusive em mim e em você, e que precisamos mudar. Precisamos de uma transformação que comece em cada um de nós e que se estenda por toda sociedade, uma mudança profunda em nosso DNA social e ético, capaz de transformar o consumo desenfreado e a ignorância latente em consumo consciente e aprendizado constante. Enquanto nos calarmos diante disso tudo, não poderemos ser chamados filhos de Deus.

Conclusão. Hoje precisamos reavaliar nossas vidas. Será que temos sido engolidos pelo sistema que aí está e temos sido submissos a ponto de não enxergarmos o mal ao nosso redor? Será que temos sido omissos na missão de evangelizar conscientemente o povo, mostrando que há sim uma maneira de ser melhor e de se viver em paz com nosso próximo? Não podemos deixar de lado nossa missão, nosso fundamento de fé é a evangelização e esta tem seus alicerces na paz e no amor de Deus. Igreja de Cristo, é preciso crer e viver o evangelho, é preciso falar do amor de Deus, é preciso viver este amor diariamente, constantemente, sem deixar de lado a denuncia ao que está errado, sem deixar de lado o amor àqueles que nos perseguem, sem deixar de lado a palavra viva de Jesus de que só seremos chamados filhos de Deus se vivermos esse amor ao amigo e ao inimigo. Amemos, este é o evangelho de Jesus.

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