Dois homens, duas orações, dois resultados
Altar | Sermões | Dom, 24 de Outubro de 2010 20:28
São Lucas 18.9-14
9Propôs também esta parábola a alguns que confiavam em si mesmos, por se considerarem justos, e desprezavam os outros:
10Dois homens subiram ao templo com o propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano.
11O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano;
12jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho.
13O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, sê propício a mim, pecador!
14Digo-vos que este desceu justificado para sua casa, e não aquele; porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado.
Jesus nos apresenta, no texto lido, uma parábola riquíssima. o publico ouvinte desta parábola, com certeza, era formado não só pelos discípulos, mas também por outros ouvintes, como fariseus e publicanos. Jesus quer nos mostrar a diferença de atitudes e princípios quando se busca a Deus. Para isto, ele evoca a figura de dois homens diferentes entre si, opostos, para confrontar aquilo que se vivia na época o que Deus desejava, e deseja, que se viva.
Hoje quero compartilhar com vocês um pouco deste cenário da parábola do fariseu e o publicano e, juntos, extrairmos deste cenário lições para nossa caminhada cristã.
Na parábola proposta por Jesus dois homens diferentes entre si sobem ao templo para orar: um fariseu e um publicano. Os fariseus eram conhecidos por seu rigor religioso, apego às tradições e à lei em seus mínimos detalhes. Interpretavam-na ao seu bel prazer e tornavam as exigências religiosas extremamente difíceis de serem cumpridas. Os publicanos eram os cobradores de impostos. Isto por si só já não careceria de explicação, quem gosta de pagar impostos, não é mesmo? Mas estes cobradores de impostos cobravam eram judeus a serviço do Império Romano, ou seja, nacionais a serviço do dominador estrangeiro. Eram desprezados pelos demais judeus, em especial, pelos fariseus, que viam neles os traidores de Israel.
Jesus toma dois homens destes dois grupos para sua parábola. São dois homens que facilmente seriam reconhecidos em sua época. Vale aqui destacar, como elemento diferenciador da categoria destes homens, o fato deles irem ao templo para orar e suas posturas lá dentro. Para um fariseu, ir ao templo era corriqueiro, para um publicano é algo digno de nota, de destaque, era mais raro vê-los no templo nas horas de oração. Ao falar do fariseu, Jesus não diz ao certo sua posição dentro do templo, mas ao falar do publicano, ele diz que este se põe “longe”. Longe do que? De quem? Possivelmente o fariseu entrou no templo e posicionou-se próximo ao Santo dos Santos, do altar, e o publicano ficou longe do altar. Seria como se o fariseu estivesse aqui, em nosso templo, aos pés da mesa da comunhão, e o publicano estaria no último banco.
Estes dois homens diferentes fazem duas orações diferentes. O fariseu assume uma postura arrogante, em pé e de mãos para erguidas olha para o céu e ora. Quem o visse orando, diria que orava para Deus, mas Jesus enfatiza que ele orava de si para si mesmo. Em momento algum ele assume a responsabilidade de seus erros, não encontra em si mesmo culpas que devam ser perdoadas. Não era desconhecido para este fariseu o texto de Isaías 6.1-5 onde, na visão de Isaías, o profeta se reconhece pecador no meu de um povo pecador. Faltava a ele o senso da presença divina. Embora externamente religioso, em seu coração não havia a distinção do pecado e o reconhecimento primordial de que ele é pecador e carece da misericórdia de Deus. Tanto isto é verdade que ele se põe a comparar-se com outros, colocando-se como parâmetro de fé a ser seguida e os demais como pessoas dignas de desprezo por ele e, segundo ele, por Deus.
Em contrapartida ao fariseu, temos o publicano. Este põe-se à distância. Considerando que, socialmente, era raro um publicano ir ao templo nas horas de oração, ele entra e coloca-se distante do altar. Por que? Possivelmente o publicano estava envergonhado de seus pecados, daí, envergonhado de si mesmo e, por isso, permanecia com os olhos abaixados. Batia em seu peito em sinal de desespero e auto reprovação e por reconhecer-se indigno da presença de Deus sua oração é simples e direta: Ó Deus, sê propício a mim, pecador! O reconhecimento básico da presença gloriosa de Deus, e mais, o reconhecimento fundamental da sua condição de pecador e da sua total dependência da misericórdia de Deus. Ele nada tem, ele não tem orgulho, ele não tem posição social para o diferenciar dos demais e colocar-se acima de alguém, ele tem a si mesmo e em si mesmo não encontra nada de digno para oferecer a Deus, por isso clama Ó Deus, sê propício a mim, pecador!
Estes dois homens diferentes, fazem duas orações diferentes e o resultado destas orações, também são diferentes. Um saiu do templo justificado, o outro não. o publicano saiu do templo sem o peso do pecado, aliviado pela misericórdia divina a acalmar e apaziguar seu coração. Deus o justifica, ou seja, o torna justo perante ele, apaga seus pecados. E o fariseu? O fariseu sai do templo, porém este não fora justificado por Deus. Nas palavras de William Hendriksen em seu comentário à este texto do Evangelho de Lucas:
“O fariseu também volta para casa, porém... sem nada! bem que poderia ter ficado em casa nesse dia, e nunca ter ido ao templo. Na verdade, isso teria sido melhor para ele”
Na expressão de Hendriksen está a constatação real de que se o fariseu não subisse ao templo com o coração voltado para Deus e não para si, de nada adiantaria ele ir ao templo.
Concluindo, o que podemos tirar de lição desta parábola? Que a salvação vem pela misericórdia de Deus. É nele que devemos confiar.
Se nós saímos de casa para vir à Igreja preocupados em tocar as músicas, em pregar o sermão, em cantar bem afinado, em como estarei vestido, em como a Igreja estará arrumada, é melhor que fiquemos em casa. Deus espera que venhamos para sua casa com os corações dispostos a ouvir a voz de Deus, isto me faz lembrar um poema de Gioia Jr. intitulado Meditação no templo, e que costumamos ler aqui em nossas liturgias na chamada à adoração:
Eu sei que estás aqui
e as Tuas mãos me outorgam
a procurada paz e a desejada calma -
escuto a Tua voz nos acordes do órgão
que nutre a minha vida e alimenta minh'alma.
Estás aqui bem perto, em tudo o que se faz
sincera e humildemente em nome de Jesus.
Para o mundo em conflito és a hora de paz
e para a vida escura - és o raio de luz!
Eu sei que estás aqui e Tuas mãos espantam
a solidão, a angústia, a inquietação e a dor,
Tu estás entre nós nos hinos que se cantam,
no silêncio da igreja e na voz do pastor.
Estás aqui pertinho e as Tuas mãos outorgam
a bênção eficaz que paira sobre nós -
e nos hinos do coro e nas notas do órgão
Tu nos fazes ouvir a Tua excelsa voz!
Se nós viemos à Igreja com qualquer outra intenção que não seja ouvir a voz de Deus e, diante de sua divina presença entregarmos nossas vidas, reconhecermos nosso pecado, é melhor que fiquemos em casa. A Igreja não é um clube social, não é um lugar de santos superiores aos demais seres humanos, é o lugar de pecadores, e mais, no espírito da atitude do publicano e das palavras do apóstolos São Paulo, dos piores pecadores.
A igreja não deve ser o lugar para contarmos vantagem sobre os demais, e como eu já presenciei isso no meio evangélico brasileiro. Como tem fariseu vestido de crente hoje em dia. Essa visão triunfalista, de que a Igreja evangélica é superior às demais, de que os crentes tem posição e prioridade no Reino de Deus é uma visão demoníaca. Quem se põe em lugar de destaque no Reino de Deus se opõe ao nosso Senhor Jesus Cristo, e quem é o adversário de Jesus, senão Satanás?
É preciso, Igreja, reconhecer o nosso pecado, reconhecer que somos pecadores, que nada temos a mais que os outros exceto a consciência de nosso pecado. É preciso reconhecer em Jesus o nosso único e suficiente salvador, aquele que nos mostra a melhor maneira de viver em comunidade, de respeitar o nosso próximo, a nossa sociedade e o meio ambiente. Deus, em sua misericórdia, não olha para a forma, mas sim para o conteúdo. De nada adianta eu pregar o melhor sermão, os instrumentistas tocarem espetacularmente bem, a liturgia ser bem feita, o templo estar impecável, se nossos corações não estiverem voltados para Deus. Dar o nosso melhor para Deus é pouco. É preciso dar mais que o nosso melhor, é preciso nos entregarmos por inteiro a Deus. Em nossa imperfeição e erros, ele nos usa e transforma para que seu Reino seja semeado entre os povos.
Aos que confiam em si mesmos e pensam que ninguém mais tem valor, lembrem-se: o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado. Corações postos em Deus, antes de mais nada, humilham-se perante ele e testemunham da misericórdia de Deus em suas vidas por meio de atitudes concretas e sinceras. Que Deus nos capacite a sermos, cada dia mais, dependentes de sua infinita misericórdia.




