O cristão deve negar-se a si mesmo
Altar | Sermões | Dom, 05 de Setembro de 2010 20:35
São Lucas 14.25-33
25Grandes multidões o acompanhavam, e ele, voltando-se, lhes disse: 26Se alguém vem a mim e não aborrece a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. 28Pois qual de vós, pretendendo construir uma torre, não se assenta primeiro para calcular a despesa e verificar se tem os meios para a concluir? 29Para não suceder que, tendo lançado os alicerces e não a podendo acabar, todos os que a virem zombem dele, 30dizendo: Este homem começou a construir e não pôde acabar. 31Ou qual é o rei que, indo para combater outro rei, não se assenta primeiro para calcular se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil? 32Caso contrário, estando o outro ainda longe, envia-lhe uma embaixada, pedindo condições de paz. 33Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto tem não pode ser meu discípulo.
Jesus está vindo da região da Peréia a caminho de Jerusalém. Neste caminho ele era seguido por numerosa multidão. Em certo momento de sua caminhada Jesus se vira para esta multidão e profere as palavras do texto que lemos.
Chama-me a atenção duas grandes expressões neste texto. A primeira, a enfática afirmação de Jesus que seus discípulos hão de aborrecer seus pais. A segunda, a afirmação que o discípulo de Jesus deve levar sua cruz. Esta última, é bem ilustrada com duas pequenas parábolas.
Quero meditar com vocês acerca destas duas questões e sobre elas pensarmos sobre nossas vidas.
Aborrecer. Interessante a escolha dos tradutores para esta palavra no português. A palavra grega aqui usada, MISEO, é literalmente odiar. Por isso este texto e este alerta de Jesus merece tanto a nossa atenção. Jesus está literalmente dizendo que quem o segue odiará seu pai e sua mãe, seu cônjuge e filhos, seus irmãos e até a si mesmo. Palavras fortes de Jesus, mas que não são ditas apenas aqui em Lucas, mas repetem-se em Mateus 10.37.
Estaria Jesus, aqui, descumprindo o mandamento de honrar pai e mãe? De forma alguma, Jesus está afirmando que o amor a Deus e a ele vêm em primeiro lugar e que, muitas vezes, amar a Deus implicará em se opor aos interesses da família e muita vezes aos nossos próprios interesses. Amar e seguir a Jesus implica em colocá-lo em primeiro lugar em tudo em nossas vidas, à frente de todos os interesses, todos, à frente de qualquer escolha.
Será que estamos realmente dispostos a enfrentar o que for para seguir a Jesus? A sentença seguinte, proferida por Jesus, nos faz pensar muito sobre o que é ser cristão.
E qualquer que não tomar a sua cruz e vier após mim não pode ser meu discípulo. É preciso que, após negarmos a nós mesmos, tomemos a cruz. Tomar a cruz, para aquele povo que seguia a Jesus e o ouvia, era uma expressão demasiadamente forte. Tomar a cruz era símbolo de condenação e vergonha pública. O Império Romano fazia questão de desfilar os condenados à crucificação pela cidade com a sua cruz sobre os ombros. Era a forma de demonstrar a dominação e semear o medo entre os subjugados do Império. Tomar a cruz, era assumir a condição de condenado e ter a certeza do fim de tudo.
Portanto, ao nos afirmar que devemos tomar a nossa cruz, Jesus está nos intimando a sofrer o que ele sofreu, a enfrentar as dificuldades de uma vida dedicada ao evangelho em meio a uma sociedade corrupta e entregue aos seus próprios prazeres. Tomar a cruz, hoje, é ter a certeza que o evangelho de Jesus não é o evangelho do sucesso pessoal, nem o evangelho da prosperidade financeira, mas é o evangelho da morte, o evangelho que leva ao calvário, o evangelho que prega nossos corpos na cruz, o evangelho que ressuscita para a vida eterna. Tomar a cruz hoje é negar os valores demoníacos que levam o ser humano para a morte e, mais que negar, é combater estes valores. A Igreja precisa estar ciente que não um mero clube numa cidade, nem um associação civil, mas é corpo vivo de Cristo, com sua cruz sobre os ombros a viver o evangelho.
Por isso Jesus, ao afirmar que cada um deve tomar a sua cruz, logo em seguida, ilustra com duas parábolas o que quer dizer.
A primeira parábola, que poderíamos chamar de A parábola do construtor imprudente, registrada nos versos 28-30, nos fala sobre a necessidade de planejar o que se vai fazer. Qual a relação que o planejamento de uma obra tem com o tomar a própria cruz e seguir a Jesus?
Quando se vai construir, deve-se planejar cada etapa e ter a certeza que o investimento a ser feito está a contento do bolso mas, principalmente, se será bem feito e executado. No caso da parábola, Jesus nos mostra um agricultor que, possivelmente estaria construindo uma torre para vigiar sua vinha. Esta construção deve ser bem planejada e alicerçada, para que ele não venha a ser motivo de vergonha para si e para seus familiares. Da mesma forma o ato de tomar a cruz deve ser pensado. Precisamos ter a consciência que vir à frente da igreja e fazer a pública profissão de fé é um ato de demolição da nossas vidas e reconstrução, devidamente alicerçados, em Jesus. É como se estivéssemos diante de uma estrada que bifurca e precisássemos decidir qual caminho tomar. Para decidir, é preciso saber o que Jesus já afirmara nos versos 26 e 27. Escolher caminhar com Jesus é demolir nossas vidas e reconstruí-las alicerçadas em Jesus.
A segunda parábola, que poderíamos chamar de A parábola do rei imprudente, registrada nos versos 31-32, nos fala sobre um rei que precisa decidir se irá ou não para a guerra. Para isso ele precisa avaliar se seus soldados, metade do exército inimigo, são capazes de vencer ou não a batalha.
O rei está diante de um impasse. O que deve fazer? É preciso tomar uma decisão. Irá para a guerra ou negociará a paz? Não há outra alternativa, é preciso decidir e decidir já! Ele não pode mais esperar, o exército inimigo avança em sua direção. O que fazer? Jesus está perguntando para nós hoje: o que fazer? Há um exército de valores na sociedade que invadem nossas famílias pelas telas do computador e da TV, o que fazer? Há um exército de ganância e egocentrismo ao nosso redor, o que fazer? Mais uma vez estamos naquela estrada que bifurca, é preciso tomar um caminho, qual caminho você vai tomar? Qual direção vai seguir? Vai ficar parado e ser dominado pelo exército inimigo, ou vai combater o bom combate. Mas são vinte mil contra dez mil, você poderá dizer, mas o Senhor é conosco. Tomar a cruz é enfrentar os gigantes de nossas vidas, é suportar a dor da derrota sabendo que a vitória está garantida no final. É ter a certeza da morte em nome de Cristo tanto quanto a certeza da vida eterna. O que você vai fazer? O que eu vou fazer? Qual a sua escolha? Qual a minha escolha?
É preciso decidir, discípulo de Jesus serve a Jesus, não é possível servir a dois senhores, ou amamos a Jesus e o seguimos, ou não. Não tem meio termo, não dá para ficar em cima do muro.
Assim, pois, todo aquele que dentre vós, não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo. Quero concluir lembrando a cada um de nós que seguir a Jesus é renunciar a nós mesmos. É renunciar a tudo o que temos: bens materiais, valores pessoais, família, amigos, irmãos. Tudo, absolutamente tudo, deve ser deixado de lado para vivermos com Jesus. Aquela multidão que seguia a Jesus, no caminho para Jerusalém, ouviu da boca do mestre duras palavras, mas palavras que colocaram aqueles seguidores contra a parede. É preciso decidir, é preciso definir. Ou com Jesus, ou sem Jesus. Haverão momentos de fraqueza, de tristeza, de desânimo. Existirão dias em que vamos até querer desistir, mas é nestes momentos que Jesus estende sua mão e nos ajuda a caminhar.
Jesus não nos prometeu um mar de rosas, uma vida sem problemas e dificuldades, Jesus nos apontou a cruz. O que você vai fazer? Colocá-la sobre os seus ombros e segui-lo? Ou deixá-la de lado e renunciar a Jesus? O Espírito Santo de Deus, quando nos chama, é definitivamente. Você vai negar esse chamado e suportar a maldição da distância de Deus? Ou vai assumir de uma vez por todas que é servo do Deus vivo e que ele é o Senhor de tua vida? Lembre-se: a diferença entre um cristão e o não cristão é que o primeiro tem consciência do pecado, o segundo não. Eu você não podemos negar que temos consciência de nossos pecados. O que faremos? Que Deus nos ilumine.




